..." Aos ricos e poderosos de Davos, que a elogiaram por lhes dar esperança, ela respondeu: “Não quero sua esperança. (…) Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam o medo que sinto todos os dias. Quero que vocês ajam. Quero que vocês ajam como agiriam na crise. Quero que vocês ajam como se a casa estivesse pegando fogo, porque está.”

 

Estamos vivendo tempos assustadores. Como Greta Thunberg tem dito com frequência: “Nossa casa está pegando fogo”. E eu acredito firmemente que três coisas devem estar alinhadas, se quisermos extinguir as chamas. Para começar, precisamos de coragem para sonhar com outro tipo de futuro. Para afastar o sentimento de apocalipse inevitável que permeia nossa cultura. Para nos dar orientação, um objetivo comum, um vislumbre do mundo pelo qual estamos trabalhando.

Mas esses sonhos são inúteis se não estivermos dispostos a abraçar duas outras forças. Uma é a necessidade de encarar a verdade de nosso momento histórico – a verdade sobre o quanto já perdemos e o quanto mais estamos à beira de perder, se não abraçarmos níveis revolucionários de mudança.

A outra coisa é reconhecer que encontramos nossa luta. Temos de nos unir através das diferenças e construir uma alternativa potente e inabalável. Diante dos incêndios que balançam nosso mundo, temos que encontrar nosso próprio fogo. Nossa verdade e nosso fogo.

Greta Thunberg é uma das pessoas mais reveladoras desta ou de qualquer outra época. Vamos relembrar algumas de suas falas mais emblemáticas. Aos negociadores climáticos da ONU na Polônia, em dezembro passado, ela disse: “Vocês não são maduros o suficiente para falar das coisas como elas são. Até esse fardo vocês deixam para nós, crianças.”

 

Aos deputados britânicos que pediram que ela falasse, ela perguntou: “Meu inglês está bom? O microfone está ligado? Porque estou começando a duvidar.”

Aos ricos e poderosos de Davos, que a elogiaram por lhes dar esperança, ela respondeu: “Não quero sua esperança. (…) Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam o medo que sinto todos os dias. Quero que vocês ajam. Quero que vocês ajam como agiriam na crise. Quero que vocês ajam como se a casa estivesse pegando fogo, porque está.”

Ela também disse a eles que não podemos culpar as pessoas pela crise climática. Não, e ela disse olhando-os nos olhos que os culpados são eles. E nós sempre vamos amá-la por isso.

Mas Greta não é só de falar. Tudo isso começou com ação. Começou quando Greta se deu conta, há um ano e um mês, de que se desejava obrigar os poderosos a correr em ritmo de emergência contra as mudanças climáticas, precisava refletir esse estado de emergência na própria vida. Então, parou de fazer a única coisa que, espera-se, todas as crianças devem fazer normalmente: ir à escola e preparar-se para o futuro como adultos.

Em vez disso, ela se postou diante do parlamento sueco com um cartaz feito à mão que dizia simplesmente: “Greve Escolar pelo Clima”. Começou a fazer isso todas as sextas-feiras, e logo atraiu uma pequena multidão. Então outros estudantes começaram a fazer o mesmo em outras cidades.

 

Estudantes como Alexandria Villaseñor, que se colocou diante do edifício das Nações Unidas em Nova York toda sexta-feira, semana após semana, fizesse chuva, neve ou sol. Algumas vezes a greve dos estudantes pelo clima foram feitas por uma única criança. Outras vezes, dezenas de milhares apareceram.

E então, no dia 15 de março, aconteceu a primeira Greve Escolar Global pelo Clima. Mais de 2 mil manifestações, em 125 países, com 1,6 milhão de jovens participando num mesmo dia. Um milhão e seiscentas mil pessoas. Uma conquista e tanto para um movimento que começara oito meses antes com uma única menina de 15 anos em Estocolmo, Suécia.

E agora, esse movimento se prepara para o seu maior desafio: eles pediram a pessoas de todas as idades que em 20 de setembro participem e entrem em greve, em todo o mundo. Porque proteger o futuro não é um esporte para espectadores.

Thunberg e os muitos outros jovens organizadores incríveis deixaram bem claro que não querem adultos dando tapinhas em suas cabeças e agradecendo-lhes pela dose de esperança. Querem que nos juntemos a eles em sua luta pelo futuro. Porque é direito deles. E dever todo nosso.

 

 

via https://outraspalavras.net

 

boletim o professo grafica FINAL 1

Olá professora e professor.

Para baixar o boletim clique aqui.

É com satisfação que lhe entregamos mais uma edição (423, ref. agosto e setembro/2019 ) do Boletim “O Professor”, informativo do Sindicato dos Professores do ABC, SinproABC .
Nesta edição, você vai ficar sabendo tudo sobre a Reforma da Previdência. O senado anuncia votação dia 24. É preciso colocar pressão nos senadores e continuar conversando com as pessoas. Explicar o vergonhoso “toma lá dá cá” com liberação de emendas parlamentares e os altos cachês distribuídos à artistas para falarem bem da Reforma. Vai saber também as regras para o saque do FGTS.

Nessa edição tem a entrevista com o Pastor Ariovaldo que é uma importante liderança evangélica e lidera a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Vai saber sobre a luta incansável dos professores da Metodista e da Fundação Santo André, vítimas de atrasos nos salários. Tem eleições no Sinpro e tem notícia boa: A agenda do Professor 2020 acaba de sair e homenageia o centenário da escritora Clarice Lispector.

A novidade dessa edição é que agora o Professor e Professora tem um canal exclusivo no youtube. É o canal do SinproABC com conteúdo de qualidade para a categoria, entrevistas e dicas sobre seus direitos: férias, pagamentos, pedidos de demissões, entre outros. No canal você também vai poder conferir as parcerias do Sinpro ABC para aproveitar as horas de folga.

Boa Leitura!
Secretaria de Comunicação do Sinpro ABC
www.sinpro-abc.org.br

Uma sociedade autoritária

 

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo
via Revista Giz - SinproSP

 

Um adolescente negro, franzino, 17 anos, acusado de tentar roubar uma barra de chocolate, é brutalmente torturado e chicoteado. Nas costas – e na alma – ficam as marcas dos açoites. Jamais serão apagadas. O episódio, grotesco, bárbaro, a lembrar os horrores dos tempos da escravidão no país, aconteceu em agosto de 2019, numa unidade do supermercado Ricoy localizada na zona Sul de São Paulo. O vídeo com as cenas horrendas viralizou nas redes sociais – e, o mais assombroso, foi gravado pelos algozes do rapaz, seguranças do mercado que, sádicos, se divertiam com as chibatadas e o espancamento.

Vale lembrar: não é um caso isolado. O racismo, em suas mais diferentes, violentas e cotidianas manifestações, é traço determinante de formação da sociedade brasileira. “Sempre fomos autoritários”, defende Lilia Schwarcz, autora do livro Sobre o autoritarismo brasileiro, lançado recentemente pela Companhia das Letras. A obra, feita a pedido da editora, tenta refletir justamente sobre nosso passado colonial violento, suas heranças perversas e o mito da democracia racial, trazendo à tona também temas como patrimonialismo, machismo, desigualdades sociais e corrupção, para desmontar a tese do “homem cordial” e revelar uma sociedade profundamente autoritária. E que agora encontra respaldo institucional para manifestar publicamente, sem constrangimentos ou freios, todos os seus preconceitos e ódios.

O livro ajuda a compreender o momento histórico que estamos enfrentando. “Vivemos uma democradura, um governo autoritário levado ao poder pelo voto democrático, um valor que o próprio governo não defende”, analisa Lilia. Para ela, é tempo de fazer chegar à sociedade, de forma mais ampla, essas reflexões e as propostas para enfrentar o autoritarismo. “Tenho defendido que é nosso dever fazer o conteúdo chegar para amparar e fomentar a discussão. Só o diálogo trará caminhos mais frutíferos e menos ressecados, como o que vivemos”, completa.

A reportagem da Giz conversou com exclusividade com a autora e traz aqui os melhores momentos da entrevista.

Como foi o processo de produção e organização do livro?

Ele nasceu de uma encomenda da Companhia das Letras, minha editora, que queria discutir com alguma celeridade algumas questões ligadas aos nossos traços constitutivos. Quem viveu no Brasil nos últimos 20 anos está com muita dificuldade em entender como e por que estamos vivendo hoje sob o domínio de uma democradura, onde o grande chefe, que despreza as instituições democráticas abertamente, chegou ao pode através de uma eleição democrática e legítima. E não estamos sozinhos nesse retorno a tempos mais autoritários. A Rússia, a Turquia e a Hungria parecem estar experimentando a mesma situação: governos autoritários que chegaram ao poder através de pleitos corretos. O mesmo vale para Venezuela e Filipinas também. Eu queria entender esse processo. Quais as razões que levam o cidadão a eleger Jair Bolsonaro?

Como entender essa ascensão do autoritarismo?

Precisamos entender essa ascensão autoritária brasileira como uma queda, uma redução da noção de Res Pública, de coisa pública. É ainda uma resposta ao assombro que vivemos em 2018. Como explicar que o que está subindo ao poder, por mais truculento que possa parecer, foi escolhido por nós? Foi feita nossa vontade. É como se nos últimos meses, o Brasil tivesse aberto uma porta perigosa, que revela sentimentos e pensamentos muito contrários à Democracia. Se, no passado próximo, havia certo constrangimento em defender ideias assim, hoje, ao contrário, valores autoritários, ligados àquela herança que tentamos negar, estão autorizados a circular por aí. E o governo atual não só autoriza, como incentiva tal prática.

O Brasil abriu a jaula do autoritarismo em 2018?

Sempre fomos autoritários. Sempre flertamos com o autoritarismo e, nos momentos de crise, essa opção é a primeira a ser sacada. Vamos voltar a 2013, onde, talvez, estejam as primeiras pistas de que daríamos essa guinada à direita. Era um tempo de crises: econômica, social, política e cultural. O que se costuma fazer nesses momentos? Culpar alguém. No nosso contexto, culpamos o governo do PT pelos escândalos de corrupção e por todas as mazelas econômicas que viriam na esteira. Por extensão, os partidos de esquerda e as organizações que defendem direitos sociais também foram culpabilizados. Neste ponto, cresce a intolerância e os grupos se dividem entre os que defendem a eliminação da chamada banda podre, que seriam então os heróis justiceiros, e seus inimigos. Cresce a intolerância e, com ela, a noção de que o que não é igual ao pensamento do líder pode e deve ser extinto. E isso é muito sério. Ainda no nosso exemplo, esse monstro assombroso ressurge como uma resposta a um período de grandes avanços, grandes conquistas através de pedidos por mais direitos. Estou me referindo às manifestações de 2013 que nasceram do desejo de variados grupos por mais mobilidade, ou por mais acesso a direitos sociais.

Resolvemos abandonar de vez a ideia do ‘homem cordial’?

Me parece que a velha vestimenta da cordialidade, da democracia racial, dos bons selvagens, que adotávamos não têm cabido mais. Sempre fomos um povo autoritário, conservador e violento. Nossa feição foi talhada a partir da escravidão, que deixou o racismo como herança, do patrimonialismo, da violência, da corrupção e da desigualdade de gênero, por exemplo. As marcas dessas posturas redundam na polarização atual que experimentamos hoje, de forma que não dá mais para disfarçar.

É o racismo como traço fundador da nossa sociedade?

É uma marca profunda, certamente. O livro inicia deste ponto. Convivemos com a escravidão com muita normalidade e sua feição se colocou em nossas narrativas e em nosso cotidiano com uma normalidade brutal. Como, no fim da escravidão não houve um momento de revisar tudo isso, as consequências estão aqui, até hoje, estruturais.

As feridas da recente ditadura militar também não foram resolvidas…

A Constituição Federal de 1988 é um documento amplo, feito longamente e com muito cuidado. Justamente por isso, por seu caráter progressista e liberal, deixou algumas questões em aberto, para serem discutidas com calma e no tempo certo. Os militares, por exemplo, implicados com o regime, receberam, em vez de julgamento, uma anistia, que não os condenou nem passou a história a limpo. No entanto, a mesma Constituição permitiu a formação de Comissões da Verdade para trabalhar o legado da ditadura. No entanto, isso só não basta. Tudo aquilo que não é enfrentado, abertamente, ressurge, assombrando o presente. O atual governo vive e narra uma espécie de paraíso militar, que reforça a história desse país que sempre recorreu aos militares quando precisava avançar politicamente. Basta lembrar que a Primeira República começou e foi, por boa parte do tempo, um estado de sítio. Em relação à Ditadura de 1964, os relatos oficiais escondem não só os assassinatos, como também a inflação, o endividamento externo e a corrupção, ou a gente acha que isso não existia? A corrupção tem algo de endêmico no nosso Estado e, às vezes, voltamos a ela para buscar e encontrar salvadores da pátria, que nos livrarão dessa praga. Repetidas vezes, esse papel coube aos militares.

Como a corrupção se relaciona com essa questão do autoritarismo?

A narrativa da Lava Jato e, antes ainda, do combate ao mensalão, mensalinho, é toda pautada em como a corrupção deteriora a renda, os bens, o Estado, em como essa prática deteriora o que é público, de posse do povo de um lugar. No entanto, ao propor o fim da corrupção, os salvadores acabam sugerindo o fim do próprio Estado, como se a existência dessa instância tivesse uma natureza corrupta. Dessa vez, na Lava Jato, temos uma grande novidade. Pela primeira vez, temos corruptos e corruptores sendo investigados, julgados, condenados e presos. Por supostamente sugerir uma Justiça equânime, a força tarefa de Curitiba acabou alçando um juiz à condição de ídolo. Na verdade, a Justiça foi usada para fazer emergir uma ideologia, um projeto de poder. É importante entender que o autoritarismo está presente no modo de ação da força tarefa da Lava Jato, de seus procuradores e juízes. A troca de mensagens revelada recentemente mostra uma afronta à coisa pública, autoriza uma maneira de agir que não é republicana, numa espécie de ditadura do Judiciário, que se sobrepõe aos outros poderes, derrubando o equilíbrio tradicional entre as três esferas. O nome disso, como aparece no livro, é patrimonialismo, que ao lado do autoritarismo e da corrupção são os maiores inimigos do país. O patrimonialismo é uma mania que o brasileiro tem de achar que o Estado lhe pertence e que pode ser usado para fins pessoais e sociais. No caso da Lava Jato, o que vemos é o uso do Judiciário para causas particulares mesmo, um tipo de vingança, que dificulta a Democracia de seguir seu curso de aprofundamento.

A senhora tem defendido um diálogo mais efetivo entre a universidade e a população. O livro dá conta dessa proposta, ou seja, pode ajudar a construir caminhos para o enfrentamento dessa ascensão autoritária?

Ele é um livro bem amplo, que passa por essas questões que levantamos antes, mas tivemos o cuidado de não recortá-lo com notas, citações ou excesso de bibliografia, como é frequente em obras acadêmicas. Porque o intuito era conseguir uma obra séria, de consulta e reflexão, mas leve e gostosa o suficiente para alcançar públicos diversos, e não restrito às universidades, ou estudiosos dos temas. Devo o que sou e o que represento hoje à academia e não renego de forma alguma, mas entendo que é tempo de professores e pesquisadores fazerem contato com a sociedade. Há algumas décadas, tínhamos a figura do intelectual público, aquele que não é diretamente relacionado a uma instituição de ensino ou pesquisa, mas pode refletir sobre as questões da sociedade. Penso que é tempo de fazer chegar esses pensamentos e propostas para a sociedade como um todo. Seja via imprensa, ou redes sociais, tenho defendido que é nosso dever fazer o conteúdo chegar para amparar e fomentar a discussão. Só o diálogo trará caminhos mais frutíferos e menos ressecados, como o que vivemos.

http://revistagiz.sinprosp.org.br/?p=7731

A Base Nacional Comum Curricular - BNCC será o tema do seminário realizado pelo SinproABC – Sindicato dos Professores do ABC, no próximo dia 5 de outubro.
Para discutir o documento que define as aprendizagens que todos os alunos do Brasil devem desenvolver em cada etapa da Educação Básica foram convidados o vice-presidente da Apeoesp, Fabio Santos de Moraes, pedagogo, professor de história e Conselheiro da CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e a Doutora e Mestre em Educação pela Universidade de Aveiro em Portugal, Dra Eliane de Souza Cruz que também é docente na Unifesp Diadema e licenciada em Física pela Usp. Eliane de Souza é coordenadora do Programa de extensão [email protected]ções.

Ao final do debate será fornecido certificado.

Para participar se inscreva pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., WhatsApp (011) 98921-2588 ou ligue (11) 4994-0700.
O seminário acontece das 9h30 as 12h e será realizado no auditório do Sindicato dos Químicos, Rua Senador Fláquer, 813 – Centro de São André.

 

http://download.basenacionalcomum.mec.gov.br/

CARTAZ SEMINARIO2019 manter a margem branca

 

Para o sociólogo e educador espanhol, governo aposta em discurso de medo, exceção e ameaça para questionar as escolas públicas
O anúncio do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares apresentado pelo governo Bolsonaro no início do mês se apoia em duas narrativas principais: a de que, sob gestão dos militares, as escolas conseguirão resolver a questão da violência – motivo pelo qual o plano considera aplicar a militarização em territórios mais vulneráveis – e ainda produzir melhores resultados educacionais, a partir de mais regras e disciplinas no ambiente escolar.
As justificativas não convencem o sociólogo e educador espanhol Miguel Arroyo, que vê o modelo com preocupação. Para ele, há perguntas anteriores que devem ser feitas antes de substituir educadores e gestores educacionais por militares e levar a lógica da militarização a esses espaços. “Por que há violência nas escolas e qual ideal de educação temos?”, questiona.

 

Em entrevista a CartaCapital, o educador explica o modelo de escolas militarizadas como parte integrante de uma política vigente de “criminalização dos mais pobres”, que questiona as estruturas democráticas, sobretudo as escolas, a partir de um discurso de medo, exceção e ameaça.

 

 

CartaCapital: Como o senhor avalia a narrativa de que a militarização das escolas resolverá a questão da violência dos territórios mais vulneráveis?
Miguel Arroyo: Em relação à violência, eu destacaria o seguinte: quais escolas serão militarizadas? Não serão as privadas, mas as públicas, locais que recebem as infâncias populares das favelas, dos campos. Digo isso para que pensemos: que infâncias estão sendo pensadas como violentas? Estamos em um momento no qual se busca a criminalização das infâncias e adolescências populares, bem como dos movimentos sociais de luta por terra, teto, transporte, o que eu chamo de política criminalizante dos pobres. E isso me soa de uma brutalidade assustadora. Portanto, o que ao meu ver legitima a criação das escolas militarizadas é o discurso de que as infâncias são criminosas, mas não todas, só as populares, ou se criminaliza quem está na escolas privadas? Esse é um alerta político muito sério, mas que não acontece de agora.

Nós já vínhamos há uns dois, três anos, pressionando pelo rebaixamento da idade penal. E a ideia que sustenta essa tese é a mesma, a de que as infâncias e as adolescências são violentas. Então, em vez de entregá-las às escolas públicas, aos educadores e educadoras, se defendia encaminhá-las à justiça penal, um jeito de tirar esses estudantes da escola e colocá-los na prisão.

A novidade agora é que não vamos mais tirá-los das escolas, mas colocar as próprias unidades sob o controle da justiça penal, sob a lógica policial, militar, o que eu vejo com extrema gravidade. A ideia da militarização representa a condenação da infância e seu controle pela polícia. Preferem isso a colocar uma questão fundamental: por que há violência nas escolas?

Não são as infâncias que são violentas. Elas são sim violentadas pela sociedade, pela pobreza, pelas favelas, pelas desigualdades sociais, de raça, gênero e isso chega às escolas. Mas preferem ocultar isso, a olhar com seriedade. As infâncias são vítimas de violência e respondem da mesma maneira às violações que sofrem.

 

 

CC: Do ponto de vista da política educacional e do direito à educação, o que a militarização das escolas representa?
MA: Está se decretando a falência da escola pública e não só dela enquanto instituição, mas também dos educadores e dos gestores educacionais formados para atuar na área. Ao substituí-los por militares, damos um recado claro: vocês fracassaram. E isso é muito sério. A tentativa é de desconstruir toda a luta por uma educação pública de qualidade, tal como podemos ver com os ataques direcionado às universidades federais, às Ciências Humanas. Na visão dos conservadores, a escola pública foi longe demais e precisa ser combatida. E quando se destrói a ideia da escola pública, rui juntamente a ideia do Estado público, de direitos, de cidadanias. É uma radicalidade terrível.

Outra questão que destaco ainda sobre o direito à educação é a tentativa de validar a chamada educação familiar, no bojo da destruição do Estado. Veja, o que se diz é que quem deve educar é a família ou que, caso ela não tenha condições, que seja o Estado militar. Nesse contexto, a criança não é pensada como cidadã, como um sujeito de direitos que tem, entre eles, a garantia a uma educação pública de qualidade fornecida pelo Estado.

 

 

E essa lógica será perpetrada pela escola militarizada, porque lá as crianças não são cidadãs. O militar não é símbolo do Estado cidadão, mas da soberania da pátria, da regra, da disciplina, do controle, da ordem. Todo Estado militarizado é anti cidadania, ou seja, não se afirma enquanto símbolo dos direitos cidadãos.

CC: O senhor acredita que esse modelo, baseado em regras rígidas, pode impactar no desenvolvimento das crianças e adolescentes?
MA: Uma das formas das infâncias e adolescências se afirmarem é por meio de seus corpos. Eu costumo dizer que não temos corpos, somos corpos. Trazemos nele a marca do nosso tempo, o corpo é a marca de cada tempo, da identidade. O que eu quero dizer com isso é que quando o menino usa boné, ou quando meninos e meninas optam por usar adereços ou até por um tipo de corte de cabelo eles estão simbolizando suas identidades, os corpos passam a ser afirmação de identidade, entende? E aí vem a escola militar e diz: basta! Não existe cabelo, corpo, nada. Isso é terrível, porque não reconhece as mudanças e as lutas que se acumulam na infância, adolescência e juventude.

Até o século passado, tínhamos uma visão limitada sobre essas etapas da vida, agindo com crianças, adolescentes e jovens como se não tivessem direito à fala. A palavra infância, aliás, no seu sentido etimológico denota um sentido negativo, não-falante. A adolescência chamávamos de ‘aborrescência’ e a juventude era vista como uma fase preparatória para a vida adulta. Mas isso mudou radicalmente. Hoje a infância tem voz, a adolescência é o tempo da afirmação, da orientação sexual, das experiências que culminam, por exemplo, em tantos movimentos organizados pela juventude. E se estamos diante de novos tempos para esses indivíduos, a educação também deve ser outra. Ao tentar destruir identidades de corpos, raça, gênero, se destrói a identidade humana e isso não é pedagógico.

 

CC: Ainda assim, há famílias que endossam o modelo da militarização, justamente por acreditarem na solução da violência. Como o senhor vê esse movimento?
MA: Essa alternativa é validada à medida em que se cria e se fortalece a política de estado de medo, exceção e ameaça. Imagine só uma mãe que precisa trabalhar e deixar o filho na escola, claro que ela vai querer segurança. A questão é que se criou um clima de que a escola não dá conta de seu papel e isso é totalmente intencional e político, faz com que essas mulheres não confiem mais nas escolas e cedam à proposta da militarização. Veja, o caminho democrático é sempre melhor, mas quando se cria a ideia de que na democracia não há segurança, acabamos flertando com as regras, com as posturas ditatoriais e isso também chega às escolas.

CC: Outro ponto defendido pelo governo é a possibilidade das escolas militarizadas produzirem melhores resultados. Qual a análise do senhor?
MA: Quais resultados? As escolas militares têm bons resultados para formar militares, mas não são os melhores exemplos para formar cidadãos com valores de democracia, de igualdade, valores políticos. Eu me formei em uma escola militar na Espanha, na época do general Francisco Franco, e eu não aprendi nada disso, mas sim a marchar, bater continência, a ter meu corpo militarizado. Essa é a boa educação que queremos? Temos que nos colocar essa pergunta. Os resultados serão bons de acordo com o que temos como ideal, entende? E o que vejo é uma luta por uma educação para a cidadania, pautada em valores, em respeito aos outros, fraterna e participativa.

Via Carta Capital ..

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