Temos que discutir o significado da democracia, diz ex-presidente Lula

Foi ao som da música o “bêbado e o equilibrista”, na voz da cantora Elis Regina, considerado o hino do Brasil na época da ditadura e da anistia, que o Memorial da Democracia foi lançado na noite desta terça-feira (01) no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.

O lançamento do museu virtual contou com a presença do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e uma plateia de 2 mil pessoas, entre elas a Central Única dos Trabalhadores (CUT), outras centrais, movimentos sociais, intelectuais, parlamentares e sociedade civil.

O portal foi idealizado pelo Instituto Lula e construído por uma equipe de jornalistas, pesquisadores e historiadores, que viveram o período da ditadura e da redemocratização, com o objetivo de colocar à disposição de todos os brasileiros, especialmente os jovens, as histórias que contam a poesia dessa longa jornada de luta que é a democracia. Além de ser interativo, é um espaço dedicado às lutas na construção de um País mais justo, livre e soberano.

O ex-presidente falou sobre o conteúdo do memorial, das histórias de resistência na ditadura como as intervenções nos sindicatos, as greves, a falta de liberdade de expressão, as perseguições com os trabalhadores que lutavam por igualdade e mais direitos. “Nós perdemos muita coisa durante a ditadura militar, tivemos sindicalistas que foram presos e torturados lutando pela democracia. As pessoas não se lembram e, por não se lembrarem, temos que discutir todos os dias o significado da democracia. Não tem nada mais sagrado do que a liberdade”, destacou.

Lula comparou as lutas pela democracia dentro de um regime autoritário, feito por jovens militantes da época com as manifestações atuais. “Nós cansamos de ir pra rua para melhorar a vida das empregadas domésticas, eles estão indo protestar contra os direitos das empregadas domésticas. Fomos pra rua reivindicar cotas para negros nas universidades, eles estão indo pra rua contra as cotas. Nós cansamos de ir pra rua defender o direito de uma educação de qualidade, alguns deles estão indo pra rua pedindo que coloque um menino de 16 anos na cadeia, com a redução da maioridade penal”, compara o ex-presidente.

Ele destacou ainda a importância do memorial ser lançado no “momento irracional da mentalidade brasileira” de pedir a volta da ditadura militar em faixas nas manifestações contra o governo.

Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, o Memorial da Democracia procura enfatizar a luta pela democracia e o quanto ela é essencial para os trabalhadores e trabalhadoras. “Muitos morreram para que o Brasil tivesse liberdade de expressão, mais direitos e para que o trabalhador fosse respeitado”, destaca o dirigente sindical.

O portal coloca à disposição de todos os brasileiros conteúdos dinâmicos sobre a longa caminhada desde a Colônia até o século 21 em busca de democracia com justiça social separado em 11 módulos. Os dois módulos lançados abordam os períodos mais recentes da história do Brasil. O primeiro de 1964 a 1985, período que registra a resistência contra a ditadura militar. E o segundo módulo, de 1985 a 2002, que mostra como a reconquista da democracia permitiu o povo lutar por seus direitos.

Para a historiadora Heloísa Starling, as pessoas estão muito interessadas em conhecer mais a história do Brasil. “É uma história, às vezes cruel, às vezes generosa, mas que fascina as pessoas. Eu acho que o memorial vai ser uma ferramenta importante pra pensar e entender o passado de modo que a gente possa pensar no futuro. Como diria Paulinho da Viola “Quando eu penso no futuro não esqueço meu passado”, explica uma das coordenadoras de conteúdo do Memorial.

Para o filho do jornalista morto na luta pela democracia, Vladimir Herzog, Ivo Herzog, o portal é fundamental para o censo crítico das pessoas que nasceram pós ditadura. “Eu tenho certeza que este portal é uma ferramenta maravilhosa para as pessoas conhecerem a sociedade em que vivem e as conquistas que foram alcançadas com muita luta”.

A diretora do Instituto Lula e coordenadora do portal, Clara Ant, acredita que a ideia de fazer o memorial ajudará a enxergar melhor a atualidade e o passado. “É um trabalho de resgate e valorização do que as outras gerações fizeram. É também um trabalho de alerta para o futuro, essa é a questão mais importante do projeto”.

Já para a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, essa iniciativa é uma conquista da juventude brasileira. “A gente não viveu isso na pele, portanto precisamos saber da história. Temos muito orgulho de ser herdeiros desta geração tão corajosa e de resistência”, destacou.


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